"Como fazer Educação Ambiental" é um livro que está longe de poder ser criticado por "receitas" pontuais e ativismo inconseqüente. Representa uma reflexão de diversas práticas possíveis em nossas vidas. É um presente de Vilmar Berna aos que sempre buscaram vencer a lacuna entre a prática e a teoria. Mais do que isso, é um reflexo da trajetória de seus passos, na longa luta ética do seu movimento ambientalista no cenário latino-americano.
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Com uma linguagem acessível e de compreensão clara, Vilmar nos mostra que os caminhos da Educação Ambiental são alternativas possíveis para a construção de um Brasil mais ecologicamente viável e com menos desigualdades sociais. Sua luta espelha-se na participação crítica, na vontade de transformar uma realidade oprimida, e de, atrevidamente, tentar libertar o sujeito aprendiz. Entre exemplos e reflexões, retrata o Brasil dentro de um marco político possível, trazendo novas Leis e recomendações internacionais. Neste contexto, permitimo-nos a acrescentar os valores globais da Carta da Terra, princípios éticos que tentam alertar para outros direitos da multiplicidade da vida, ampliando a defesa além dos seres humanos.
Sua contribuição no espaço escolarizado é pertinente e adequado. Observamos uma imensa lacuna em materiais pedagógicos que possam oferecer dimensões práticas e teóricas ao quotidiano da escola. Não é preciso remeter ao velho debate da imposição ideológica dos livros didáticos. Marcadamente político, proposital ou não, este instrumento educacional ainda revela ser um dos grandes colaboradores do fracasso escolar, num triste cenário educacional brasileiro. Estudos têm revelado e sugerido, cada vez mais, a produção de materiais próprios, em consonância com a realidade e ao contexto de cada local. A Educação Ambiental (EA), neste cenário do livro didático, mesmo com estrelas conferidas, aparece ligada à área de ciências ou geografia, com um tímido - ou quase nenhum - espaço a outras disciplinas. Assistimos, recentemente, um pacote autoritário apresentando a transversalidade, como se a interdisciplinaridade fosse possível através de decretos governamentais. Além disso, o tema transversal sugerido é "meio ambiente", ao invés de consolidar a prática educativa necessária à "educação ambiental".
"Como fazer Educação Ambiental" não intenciona ser outro pacote fechado, pelo contrário, incita o poder de criticidade, na busca constante da construção dos conhecimentos com incentivo da utilização de outras fontes que possam consolidar o trabalho em EA. Em seus exemplos concretos, viabiliza novas formas de ultrapassagem e oferece roteiros infinitos que podem (e devem) ser adequados às realidades locais. Fornece elementos teóricos para a reflexão de que a escola não é uma ilha isolada do sistema social, e que todos podem ser protagonistas da sua própria liberdade de participação crítica. Uma escola insere-se num ambiente. Que ambiente é este? O livro nos convida a analisar nossas representações, inserido em processos de uma formação para a ação pedagógica concreta, com integração de diversos saberes, do desenvolvimento de competências e um aprendizado coletivo para a realização de projetos. A escola torna-se, assim, uma comunidade de aprendizagem que valoriza a formação de equipes em processos éticos de solidariedade, respeito e cooperação.
O ambiente é também uma realidade compartilhada e vivida por diversas pessoas fora do espaço escolar, em um contexto cultural próprio. Assim, a abordagem para a resolução de problemas locais, com a aliança entre os diversos protagonistas, também é ricamente analisada e sugerida. A presença histórica dos movimentos sociais e das lutas ambientalistas abre novas perspectivas para que a EA não se limite ao processo educacional estrito senso, permitindo que atinja cada pessoa enquanto potencial agente de manifestação ecológica. Além disso, desafia a arrogância intelectual e oferece uma abertura para diálogos entre os diversos saberes.
Da abordagem social à natural, passando pelos elementos transformados pelas sociedades e incluindo a ética pessoal, o ambiente encontra-se intrinsecamente conectado às múltiplas manifestações da vida. Todo universo simbólico contribui para um despertar de identidade, enraizado pela trajetória humana que vislumbrou a civilização, mas que também testemunhou barbáries.
"Como fazer Educação Ambiental" não revela que é fácil "fazer" EA. Pelo contrário, suas reflexões teóricas nos mostram que a emancipação da sociedade brasileira ainda esbarra em fortes aparatos políticos conservadores. Assim, mais do que puro conhecimento, o livro nos convida a expressar nossas emoções e pensamentos, manifestando a necessidade de mudanças. Assume que a educação ambiental não pode ser neutra e que as informações veiculadas podem auxiliar nossa formação, através da leitura crítica do mundo.
Em síntese, Vilmar Berna nos dá um "toque" necessário à EA. Mistura paixão com ciência, possibilita que o conhecimento busque a poesia, que a natureza nunca esteja separada da cultura e que sejamos todos capazes de cantar uma melodia que possa superar nossas dificuldades individuais e coletivas, na realização de nossas utopias. Finalmente, tenho muito que agradecer pela prazerosa leitura, além do "toque" quase mágico oferecido, possibilitando que mais brasileiros e brasileiras possam apaixonar-se, cada vez mais, pela Educação Ambiental.
* Professora e pesquisadora em Educação Ambiental do Instituto de Educação da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso) e do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFSCar ( michele@cpd.ufmt.br e http://go.to/eamt ) .
Veja também:
Como Fazer Educação Ambiental
Os 10 Mandamentos do Amigo do Planeta
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